Trilhos

20:20 Izadora Pimenta 0 Comments

Zíper, quase sempre, é obediente. É o melhor fecho para as bolsas e casacos: basta puxar a pontinha e deslizá-lo pelos trilhos. Sempre me intrigou porque este deslize louco parece uma espécie de bruxaria. Mas nós percebemos o quanto ele não é cem por cento perfeito quando, de vez em quando, ele resolve sair dos trilhos. Ou os trilhos resolvem sair de si em um trecho, deixando os outros grudados e, desta forma, eles acabam com a harmonia perfeita do zíper, um apetrecho totalmente virginiano - talvez o zíper seja aniversariante do fim do mês de agosto e tenha uma leve queda pelo signo de Leão. Zíper me lembra um amigo que costumava voltar duas vezes ao local que trancava (um carro, um armário, a porta de casa) para ver se estava realmente fechado, só que uma vez ele resolveu não conferir e acabou deixando um refrigerante aberto mesmo. Mas era a primeira vez que ele havia deixado.

Brigo com meu zíper, que insiste em ser desobediente, enquanto estou no carro do Restaurante de uma Maria Fumaça. O trecho vai de Campinas a Jaguariúna, e nós realmente torcemos para que a Maria Fumaça não tenha quedas de irresponsabilidade como o zíper. O zíper é pequeno, ainda dá para educá-lo. Já a Maria Fumaça é uma moça feita e sabe que suas falhas terão sérias consequências na vida dos outros. A sorte é que quem revisou todos os trilhos do trecho foi o meu avô. Não dá para desconfiar de trilhos revisados pelo avô, com os dormentes trocados, um por um, essas coisas assim. Só que o carro do Restaurante é uma farofa - mas devo ficar ali, devo ficar ali, ali é o meu lugar.

Dentro da bolsa do zíper está uma Nikon 3100. Não sei mexer nela direito, mas o professor de Fotografia escreveu as instruções no meu bloquinho de anotações. Dava para perceber na expressão de desdém que ele sabia da minha pouca habilidade com a arte. Durante a faculdade de Jornalismo consegui aprender a editar áudio, vídeo e até diagramar páginas. Mas fotografia era um negócio que não virava. Achava bonito, mas nunca conseguia concretizar algo tão bonito quanto as coisas que admirava. Naquele dia eu ainda tiraria uma foto que acharia bonita, mostraria para os amigos, mostraria para o professor a sacada: uma Maria Fumaça antiga vista através do vidro daquela. No reflexo, um menininho admirado - o mesmo menininho que ali no início da viagem estava espalhando farelos de bolacha Passatempo por todo o carro ("não se fala vagão, nunca se fala vagão, vagão é para transporte de animais", insistem os funcionários da Associação Brasileira de Preservação das Ferrovias, a ABPF, que nos dão as instruções antes do início do passeio).

Os trilhos são tranquilos. Em aviões possuo um certo pavor da decolagem - seguro a mão de quem estiver ao lado enquanto minha gastrite canta junto a bossa nova que toca na aeronave, só que se pousar no Rio de Janeiro, se pousar no Aeroporto Santos Dumont, de preferência, a vista linda bloqueia toda a má impressão. Em carros de passeio, gosto de ir no banco de trás (dormindo nas viagens mais longas), ainda não tirei minha carteira de motorista (estou ensaiando). Na Maria Fumaça, o passeio tem cara de infinito.

Só que este passeio com cara de infinito é bom para estimular as fotos. Mesmo leiga, sei reconhecer a graça em um pai jovem e bonito fechando a cortina da janela para que seu filho pequeno perca a vontade de vomitar. Tirei várias fotos deles, até perceber que estava começando a me apaixonar pelo pai. Passei para a próxima vítima: o guia do meu carro. Um menino bem mais novo do que eu, nada intimidado com os cliques, que entendia perfeitamente aquele mundo pelo qual todos os dedicados se empolgavam mais do que em um Brasil x Argentina. Aquele mundo que abrigava desde a senhora animada que bate palmas ao escutar o sanfoneiro tocando a última do Michel Teló até um ensaio fotográfico - não o meu, o de Ashton Kutcher, que havia feito sua passagem na estação algumas semanas antes para aparecer (mais) lindo em um catálogo de moda.

As mesmas locomotivas que nos puxavam também já fizeram parte de cenas de novela. O trem chegava à estação da cidade fictícia e nós tínhamos a oportunidade de superar os limites de todas estas cidades fictícias. Ir até Jaguariúna fingindo ser a mocinha e voltar para Campinas com sede de vingança de vilã. Naquele dia quis ser só mocinha, quase um zíper de responsabilidade. Os planos de ser vilã teriam de ficar para depois: tudo porque ali perto da câmera, pendurada no pescoço, batia um coração um tanto quanto calejado.

Mas cura-se coração calejado com coxinhas e cerveja. É por isso que na parada em Jaguariúna sento em uma mesa e peço os meus favoritos. As coxinhas estão dentro das melhores que já comi nos bares afora: a casquinha é crocante, a massa é consistente e o frango é desfiado e bem temperado.

Bateria, a da câmera. Acaba sem mais nem menos, apesar de ela já estar me avisando há muito. Como aquele relacionamento que a gente quer prolongar - o que certamente gerou meu coração ali calejado, reanimado apenas por momentos com o almoço. A vontade de chorar iminente substituída por uma soneca desconfortável na volta. Estou acostumada a me recostar nas janelas do ônibus coletivo, não nas janelas esquisitas do carro de Restaurante da Maria Fumaça. E a Maria Fumaça certamente não irá sair dos trilhos, mas, nos meus sonhos, eu, enquanto zíper, teimo: fujo dos trilhos. Fujo das regras. Acordo assustada e não quero pensar mais nele. As fotos já não importam muito, são meros detalhes, registros certeiros e nada históricos que no futuro me renderiam uma nota 8 para passar tranquila em Fotografia. Eu queria o manual, queria que alguém escrevesse também em um bloco de anotações, as instruções para tirar ao menos uma nota 8 em alguns outros assuntos.

O destino é feito uma locomotiva. Mas não há quem o restaure. E, enquanto ele caminha pelos trilhos que me são postos à frente, estes trilhos não podem ser revisados pelo meu avô e por mais ninguém: o azar de um dormente podre poderia vir a qualquer momento.

Cruel a vida que escolheu ser Maria Fumaça.

Se fosse zíper, ainda dava pra aturar.

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Eu, ansiosa

20:02 Izadora Pimenta 0 Comments


Minha viagem de férias foi incrível. Fui para a Argentina e para o Uruguai e cumpri a promessa que fiz para mim mesma de viajar para fora do país até os 25 anos. No entanto, o que poucos sabem, é que este sonho só foi realizado graças a um impulso incontrolável que sinto de resolver coisas aqui e agora - sem sequer pensar em datas ou consequências, comprei uma passagem e tive de me virar com a sua enorme quantidade de dias. Parece que eu tenho um poder de decisão muito grande, mas é exatamente o contrário. Eu sou uma exímia ansiosa.

São coisas que parecem idiotas, mas é como se eu não conseguisse nem ao menos escrever este texto até o final, com medo de ficar muito ruim ou ser mal interpretada. Sofro por antecipação na maioria das vezes, acho que alguma coisa errada aconteceu quando não recebo uma resposta imediata das pessoas mais próximas e martelo assuntos sem sentido na minha cabeça em quase 90% das vezes.

Embora queira decidir as coisas rápido, não sei fazer isso de forma correta. Ou pior: não sei decidir. Ou pior ainda: decido e estrago muita coisa no meu caminho dali em diante. E quando eu pilho muito, já me conheço: hiperventilo por dias, meu corpo dorme e não consigo responder por mim mesma a respeito de algumas atitudes.

Queria que as coisas não fossem assim? É claro que eu queria. Queria não ter ligado trinta vezes para uma mesma pessoa quando estou esperando por uma resposta? Queria também. Queria não ser a pessoa que morre de raiva de não ter um final de semana planejado na quarta-feira? Totalmente.

Quase sempre fui a primeira a chegar em festas e muitas vezes sou acusada de querer tomar as rédeas da decisão. Outras, por ser indecisa demais. Há coisas que eu realmente não sei. Vez ou outra, me vejo em um redemoinho tão grande que, então, minha única vontade é deitar, na esperança de que esse sufoco seja sublimado.

Queria não balançar as minhas pernas involuntariamente, queria comer menos chocolate, queria ter paciência para acompanhar uma vídeo aula e tocar violão perfeitamente, queria não me distrair com algum post do BuzzFeed quando preciso resolver algo importante, queria ser mais maleável quando cobro do meu namorado essa necessidade do urgente. Mas é tão difícil, é tão complicado que, muitas vezes, eu simplesmente não sei.

Eu já fui pior. Já pirei ao descobrir que o meu futuro não seria como eu sonhava (e que isso era uma realidade totalmente condizente). E que eu precisaria ser maleável às mudanças, adaptar meus sonhos e procurar respostas em outros caminhos.

É um longo aprendizado.

Mas saber que eu não estou sozinha já alivia um pouco desse peso nos ombros.

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Sobre viajar sozinha

21:16 Izadora Pimenta 0 Comments

Em Montevideo. Não subi o letreiro por conta do pé torcido, mas valeu a intenção.


A gente fala muito sobre "se conhecer", e às vezes não percebe que pequeninas respostas para isso estão em alguns atos do dia a dia. Para citar apenas pequenas coisas, eu sei que coelhos me fazem perder a linha, que minha cor favorita é roxo e que a minha curiosidade me leva a fazer três baldeações para ir a um shopping judeu apenas para ver de perto um McDonald's Kosher. Mas, para saber dessas coisas, eu tive que parar, sentar e escrever em um bloco de notas vários fatos peculiares sobre mim mesma. Se teve um momento na minha vida no qual eu me conheci de verdade, isso foi quando eu decidi viajar sozinha.


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O escuro ou o medo de estar sozinha

20:43 Izadora Pimenta 0 Comments

Em português: "Se vai pagar a viagem com 100 pesos, avise o motorista antes de começar" - táxi em Palermo Hollywood, Buenos Aires, março de 2016



Situação #1

Eu estou voltando da casa do meu namorado, que mora em outra cidade. São sete da noite, é um domingo, o ponto de ônibus mais próximo à minha casa é na frente de uma lanchonete, em uma avenida mal iluminada. A poucos metros, há um ponto de ônibus, mas eu não posso ir lá. Tenho medo do caminho. Decido comer um lanche antes de pedir por um Uber. Na lanchonete, o garçom resolve me cantar. Não tenho paciência, fecho a cara. Meu pedido demora - porque eu "sou mal educada", porque eu "sou grossa", porque eu não tenho "senso de humor", de certo. É uma cantada barata. Não estou a fim. Qual é o direto dele? Como o lanche. Meu namorado sempre me pede para avisar quando pego o ônibus, quando chego na lanchonete e quando chego em casa. "Me avisa quando chegar", essa é a preocupação constante da gente. Há poucos dias, uma mulher havia sido estuprada por um motorista de um ônibus, o mesmo que poderia me levar até a minha casa. Também não posso cogitar descer de ônibus na avenida perto de casa neste horário, é escuro. Meu Uber chega. Vejo que o aplicativo possui uma funcionalidade para outra pessoa acompanhar o seu trajeto. Envio ao meu namorado. Nego água e bala com sinais de cabeça, não quero falar, só quero chegar à minha casa. Chego em casa. Olho para todos os lados e abro o portão. Entro e penso o porquê de ter de passar por isso. Sou mulher.

Situação #2

Estou perdida em Palermo Chico, Buenos Aires. Não consigo achar uma boa conexão de WiFi e caminho pedindo orientação às pessoas na rua. Não sei como fui parar naquela avenida desconhecida, só fui comprar mate no supermercado, mas as ruas são muito confusas. Fui sozinha para uma viagem de 12 dias. Aquele era o segundo e eu ainda não havia conhecido ninguém para me acompanhar nos passeios. Um casal de idosos me informou a direção correta para voltar ao hostel. Pensei que "ainda bem, estou perto até!", mas não estou perto o suficiente para estar segura. Diferentemente da 9 de Julio, aquele pedaço da cidade era tão mal iluminado como aqui. Um homem começa a me seguir. Aperto o passo, ele aperta também. Mantenho a cabeça firme e começo a rezar. Próximo ao Jardim Japonês, um grupo de policiais estava parado por lá. Paro para conversar com eles, o homem olha e segue na direção contrária, ou seja, volta para trás. Explico o ocorrido e eles só dizem "no pasa nada, chica, Palermo no es peligroso" e me mandam seguir. Sigo. Olhando para trás o tempo todo. Avisto a calle certa, entro no hostel e conto o ocorrido ao atendente. Ele dá risada e também me diz que "no pasa nada". Mas eu vi muito bem que não era assim.

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Outro homem me seguiu quando tentava encontrar um ponto de ônibus para voltar de Plaza Serrano, no dia seguinte. Já era quase nove da noite. Despistei encontrando um restaurante luminoso e fingi que estava interessada no cardápio. Perto dele, o ponto de ônibus. Subo no número indicado pelo aplicativo. Sem WiFi e com má orientação do motorista, acabo parando em frente ao Hipódromo de Palermo = não faço a mínima ideia de onde estou. Só tenho 20 pesos e 20 reais no bolso, deixei o resto no hostel. Encontro um casal que me diz que a área é segura, até arrisca um português, mas mesmo assim ainda me sinto perdida e cada vez mais assustada em continuar andando. Decido caminhar até um McDonald's para encontrar WiFi ou tentar trocar meus reais por pesos. Uma senhora me aborda, dizendo que era muito "peligroso" uma menina como eu andando sozinha por ali a essa hora. Decido pegar o primeiro táxi e acabo com sorte: o taxista aceita esperar que eu pegue o dinheiro na chegada ao hostel. Respiro aliviada. Sou mulher.

...

Esses dias vi uma enquete engraçadinha. Perguntava às mulheres quem elas gostariam de ver atrás delas enquanto caminhavam em uma rua escura - um homem ou um capeta. A maioria das mulheres respondeu, sem dúvidas, o capeta.

Daí você se pergunta: "por que tantas meninas usam o filtro pelo fim da cultura de estupro?". Porque, meus caros, há uma cultura de estupro. Pode ser na rua da minha casa, no centro da cidade, em Buenos Aires ou no Azerbaijão: eu sempre vou ter medo de andar sozinha em uma rua deserta e mal iluminada. Podem levar meu celular, podem levar meu dinheiro - essas não são as minhas principais preocupações. Eu estou preocupada porque não depende da minha vestimenta, do modo com o qual eu me porto e de qualquer outro fator: eu sou mulher e estou propícia a ser estuprada a qualquer momento. Não é desejo da parte do estuprador - é vontade de dominar um sexo inferior, entendam.

Ninguém provoca nada. Ninguém começa nada. Conviver com esse medo é angustiante.

Eu sou mulher e não tenho o direito de ir e vir. 

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