Trilhos
Zíper, quase sempre, é obediente. É o melhor fecho para as bolsas e casacos: basta puxar a pontinha e deslizá-lo pelos trilhos. Sempre me intrigou porque este deslize louco parece uma espécie de bruxaria. Mas nós percebemos o quanto ele não é cem por cento perfeito quando, de vez em quando, ele resolve sair dos trilhos. Ou os trilhos resolvem sair de si em um trecho, deixando os outros grudados e, desta forma, eles acabam com a harmonia perfeita do zíper, um apetrecho totalmente virginiano - talvez o zíper seja aniversariante do fim do mês de agosto e tenha uma leve queda pelo signo de Leão. Zíper me lembra um amigo que costumava voltar duas vezes ao local que trancava (um carro, um armário, a porta de casa) para ver se estava realmente fechado, só que uma vez ele resolveu não conferir e acabou deixando um refrigerante aberto mesmo. Mas era a primeira vez que ele havia deixado.
Brigo com meu zíper, que insiste em ser desobediente, enquanto estou no carro do Restaurante de uma Maria Fumaça. O trecho vai de Campinas a Jaguariúna, e nós realmente torcemos para que a Maria Fumaça não tenha quedas de irresponsabilidade como o zíper. O zíper é pequeno, ainda dá para educá-lo. Já a Maria Fumaça é uma moça feita e sabe que suas falhas terão sérias consequências na vida dos outros. A sorte é que quem revisou todos os trilhos do trecho foi o meu avô. Não dá para desconfiar de trilhos revisados pelo avô, com os dormentes trocados, um por um, essas coisas assim. Só que o carro do Restaurante é uma farofa - mas devo ficar ali, devo ficar ali, ali é o meu lugar.
Dentro da bolsa do zíper está uma Nikon 3100. Não sei mexer nela direito, mas o professor de Fotografia escreveu as instruções no meu bloquinho de anotações. Dava para perceber na expressão de desdém que ele sabia da minha pouca habilidade com a arte. Durante a faculdade de Jornalismo consegui aprender a editar áudio, vídeo e até diagramar páginas. Mas fotografia era um negócio que não virava. Achava bonito, mas nunca conseguia concretizar algo tão bonito quanto as coisas que admirava. Naquele dia eu ainda tiraria uma foto que acharia bonita, mostraria para os amigos, mostraria para o professor a sacada: uma Maria Fumaça antiga vista através do vidro daquela. No reflexo, um menininho admirado - o mesmo menininho que ali no início da viagem estava espalhando farelos de bolacha Passatempo por todo o carro ("não se fala vagão, nunca se fala vagão, vagão é para transporte de animais", insistem os funcionários da Associação Brasileira de Preservação das Ferrovias, a ABPF, que nos dão as instruções antes do início do passeio).
Os trilhos são tranquilos. Em aviões possuo um certo pavor da decolagem - seguro a mão de quem estiver ao lado enquanto minha gastrite canta junto a bossa nova que toca na aeronave, só que se pousar no Rio de Janeiro, se pousar no Aeroporto Santos Dumont, de preferência, a vista linda bloqueia toda a má impressão. Em carros de passeio, gosto de ir no banco de trás (dormindo nas viagens mais longas), ainda não tirei minha carteira de motorista (estou ensaiando). Na Maria Fumaça, o passeio tem cara de infinito.
Só que este passeio com cara de infinito é bom para estimular as fotos. Mesmo leiga, sei reconhecer a graça em um pai jovem e bonito fechando a cortina da janela para que seu filho pequeno perca a vontade de vomitar. Tirei várias fotos deles, até perceber que estava começando a me apaixonar pelo pai. Passei para a próxima vítima: o guia do meu carro. Um menino bem mais novo do que eu, nada intimidado com os cliques, que entendia perfeitamente aquele mundo pelo qual todos os dedicados se empolgavam mais do que em um Brasil x Argentina. Aquele mundo que abrigava desde a senhora animada que bate palmas ao escutar o sanfoneiro tocando a última do Michel Teló até um ensaio fotográfico - não o meu, o de Ashton Kutcher, que havia feito sua passagem na estação algumas semanas antes para aparecer (mais) lindo em um catálogo de moda.
As mesmas locomotivas que nos puxavam também já fizeram parte de cenas de novela. O trem chegava à estação da cidade fictícia e nós tínhamos a oportunidade de superar os limites de todas estas cidades fictícias. Ir até Jaguariúna fingindo ser a mocinha e voltar para Campinas com sede de vingança de vilã. Naquele dia quis ser só mocinha, quase um zíper de responsabilidade. Os planos de ser vilã teriam de ficar para depois: tudo porque ali perto da câmera, pendurada no pescoço, batia um coração um tanto quanto calejado.
Mas cura-se coração calejado com coxinhas e cerveja. É por isso que na parada em Jaguariúna sento em uma mesa e peço os meus favoritos. As coxinhas estão dentro das melhores que já comi nos bares afora: a casquinha é crocante, a massa é consistente e o frango é desfiado e bem temperado.
Bateria, a da câmera. Acaba sem mais nem menos, apesar de ela já estar me avisando há muito. Como aquele relacionamento que a gente quer prolongar - o que certamente gerou meu coração ali calejado, reanimado apenas por momentos com o almoço. A vontade de chorar iminente substituída por uma soneca desconfortável na volta. Estou acostumada a me recostar nas janelas do ônibus coletivo, não nas janelas esquisitas do carro de Restaurante da Maria Fumaça. E a Maria Fumaça certamente não irá sair dos trilhos, mas, nos meus sonhos, eu, enquanto zíper, teimo: fujo dos trilhos. Fujo das regras. Acordo assustada e não quero pensar mais nele. As fotos já não importam muito, são meros detalhes, registros certeiros e nada históricos que no futuro me renderiam uma nota 8 para passar tranquila em Fotografia. Eu queria o manual, queria que alguém escrevesse também em um bloco de anotações, as instruções para tirar ao menos uma nota 8 em alguns outros assuntos.
O destino é feito uma locomotiva. Mas não há quem o restaure. E, enquanto ele caminha pelos trilhos que me são postos à frente, estes trilhos não podem ser revisados pelo meu avô e por mais ninguém: o azar de um dormente podre poderia vir a qualquer momento.
Cruel a vida que escolheu ser Maria Fumaça.
Se fosse zíper, ainda dava pra aturar.












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