O escuro ou o medo de estar sozinha
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| Em português: "Se vai pagar a viagem com 100 pesos, avise o motorista antes de começar" - táxi em Palermo Hollywood, Buenos Aires, março de 2016 |
Situação #1
Eu estou voltando da casa do meu namorado, que mora em outra cidade. São sete da noite, é um domingo, o ponto de ônibus mais próximo à minha casa é na frente de uma lanchonete, em uma avenida mal iluminada. A poucos metros, há um ponto de ônibus, mas eu não posso ir lá. Tenho medo do caminho. Decido comer um lanche antes de pedir por um Uber. Na lanchonete, o garçom resolve me cantar. Não tenho paciência, fecho a cara. Meu pedido demora - porque eu "sou mal educada", porque eu "sou grossa", porque eu não tenho "senso de humor", de certo. É uma cantada barata. Não estou a fim. Qual é o direto dele? Como o lanche. Meu namorado sempre me pede para avisar quando pego o ônibus, quando chego na lanchonete e quando chego em casa. "Me avisa quando chegar", essa é a preocupação constante da gente. Há poucos dias, uma mulher havia sido estuprada por um motorista de um ônibus, o mesmo que poderia me levar até a minha casa. Também não posso cogitar descer de ônibus na avenida perto de casa neste horário, é escuro. Meu Uber chega. Vejo que o aplicativo possui uma funcionalidade para outra pessoa acompanhar o seu trajeto. Envio ao meu namorado. Nego água e bala com sinais de cabeça, não quero falar, só quero chegar à minha casa. Chego em casa. Olho para todos os lados e abro o portão. Entro e penso o porquê de ter de passar por isso. Sou mulher.
Situação #2
Estou perdida em Palermo Chico, Buenos Aires. Não consigo achar uma boa conexão de WiFi e caminho pedindo orientação às pessoas na rua. Não sei como fui parar naquela avenida desconhecida, só fui comprar mate no supermercado, mas as ruas são muito confusas. Fui sozinha para uma viagem de 12 dias. Aquele era o segundo e eu ainda não havia conhecido ninguém para me acompanhar nos passeios. Um casal de idosos me informou a direção correta para voltar ao hostel. Pensei que "ainda bem, estou perto até!", mas não estou perto o suficiente para estar segura. Diferentemente da 9 de Julio, aquele pedaço da cidade era tão mal iluminado como aqui. Um homem começa a me seguir. Aperto o passo, ele aperta também. Mantenho a cabeça firme e começo a rezar. Próximo ao Jardim Japonês, um grupo de policiais estava parado por lá. Paro para conversar com eles, o homem olha e segue na direção contrária, ou seja, volta para trás. Explico o ocorrido e eles só dizem "no pasa nada, chica, Palermo no es peligroso" e me mandam seguir. Sigo. Olhando para trás o tempo todo. Avisto a calle certa, entro no hostel e conto o ocorrido ao atendente. Ele dá risada e também me diz que "no pasa nada". Mas eu vi muito bem que não era assim.
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Outro homem me seguiu quando tentava encontrar um ponto de ônibus para voltar de Plaza Serrano, no dia seguinte. Já era quase nove da noite. Despistei encontrando um restaurante luminoso e fingi que estava interessada no cardápio. Perto dele, o ponto de ônibus. Subo no número indicado pelo aplicativo. Sem WiFi e com má orientação do motorista, acabo parando em frente ao Hipódromo de Palermo = não faço a mínima ideia de onde estou. Só tenho 20 pesos e 20 reais no bolso, deixei o resto no hostel. Encontro um casal que me diz que a área é segura, até arrisca um português, mas mesmo assim ainda me sinto perdida e cada vez mais assustada em continuar andando. Decido caminhar até um McDonald's para encontrar WiFi ou tentar trocar meus reais por pesos. Uma senhora me aborda, dizendo que era muito "peligroso" uma menina como eu andando sozinha por ali a essa hora. Decido pegar o primeiro táxi e acabo com sorte: o taxista aceita esperar que eu pegue o dinheiro na chegada ao hostel. Respiro aliviada. Sou mulher.
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Esses dias vi uma enquete engraçadinha. Perguntava às mulheres quem elas gostariam de ver atrás delas enquanto caminhavam em uma rua escura - um homem ou um capeta. A maioria das mulheres respondeu, sem dúvidas, o capeta.
Daí você se pergunta: "por que tantas meninas usam o filtro pelo fim da cultura de estupro?". Porque, meus caros, há uma cultura de estupro. Pode ser na rua da minha casa, no centro da cidade, em Buenos Aires ou no Azerbaijão: eu sempre vou ter medo de andar sozinha em uma rua deserta e mal iluminada. Podem levar meu celular, podem levar meu dinheiro - essas não são as minhas principais preocupações. Eu estou preocupada porque não depende da minha vestimenta, do modo com o qual eu me porto e de qualquer outro fator: eu sou mulher e estou propícia a ser estuprada a qualquer momento. Não é desejo da parte do estuprador - é vontade de dominar um sexo inferior, entendam.
Ninguém provoca nada. Ninguém começa nada. Conviver com esse medo é angustiante.
Eu sou mulher e não tenho o direito de ir e vir.










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